Papa visita bairro pobre e denuncia injustiça e marginalização

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O Papa Francisco visitou, na manhã desta sexta-feira, 27, o bairro pobre de Kangemi, em Nairóbi, capital do Quênia. No discurso, ele enfatizou a sabedoria dos bairros populares, mas lembrou que não se pode ignorar a injustiça da marginalização urbana.

Francisco disse que se sente em casa junto com os pobres e assegurou não ser indiferente às angústias e sofrimentos que eles vivem. Ele quis mencionar um aspecto que normalmente não aparece nas reflexões sobre exclusão: a sabedoria dos bairros populares. Trata-se de uma capacidade de tecer laços de pertença e convivência, em uma sociedade entorpecida pelo consumo desenfreado.

A cultura dos bairros populares, segundo o Papa, têm muitos valores a ensinar, como a solidariedade. “Valores baseados nisto: cada ser humano é mais importante do que o deus dinheiro. Obrigado por nos lembrardes que há outro tipo de cultura possível (…) O caminho de Jesus começou na periferia, vai dos pobres e com os pobres para todos”.

A marginalização nos bairros pobres

Embora os bairros pobres sejam dotados desses valores, Francisco disse que não se pode ignorar a injustiça da marginalização urbana. “São as feridas provocadas pelas minorias que concentram o poder, a riqueza e esbanjam egoisticamente enquanto a crescente maioria deve refugiar-se em periferias abandonadas, contaminadas, descartadas”.

Francisco mencionou realidades como a de famílias que pagam aluguéis abusivos por moradias inadequadas. Isso além do problema da sonegação de terras e da falta de acesso às infraestruturas e serviços básicos, como esgoto, energia elétrica, estradas, escolas, hospitais, centros recreativos e, de modo especial, água potável.

“Este mundo tem uma grave dívida social para com os pobres que não têm acesso à água potável, porque isto é negar-lhes o direito à vida radicado na sua dignidade inalienável. Negar a água a uma família, sob qualquer pretexto burocrático, é uma grande injustiça, sobretudo quando se lucra com essa necessidade.

Violência

A indiferença e hostilidade nos bairros populares leva a outro problema: a violência. O Papa citou como exemplo as organizações criminosas que, movidas por interesses econômicos ou políticos, utilizam crianças e jovens como “carne de canhão” para seus “negócios ensanguentados”.

Francisco acredita que esses problemas sociais são consequência de novas formas de colonialismo que pretendem que os países africanos sejam “peças de mecanismo, partes de uma engrenagem gigantesca”, como disse João Paulo II.

“Proponho que se retome a ideia duma respeitosa integração urbana. Nem erradicação nem paternalismo, nem indiferença nem mero confinamento. Precisamos de cidades integradas e para todos. Precisamos ir além da mera proclamação de direitos que, na prática, não são respeitados, e promover ações sistemáticas que melhorem o habitat popular e projetar novas urbanizações de qualidade para acolher as futuras gerações”, disse o Papa.