P. Enrique Lopez: “Não confundir o passado com o futuro”

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Verificamos, depois de uma consulta, que o texto produzido pelo P. Enrique Lopez, Vigário da Congregação, sobre a nossa ação missionária na festa de São Clemente de 2014 não tinha uma versão em português. Fizemos uma tradução precária (no aguardo de um texto de melhor qualidade), mas oferecemos aqui para que seja lido. É uma reflexão corajosa, vibrante e oportuna.

Não confundir o futuro com o passado

É o mesmo rio que corre, apesar da sua água ser sempre nova. Não se pode repetir o passado, tudo muda e exige novas respostas e este é o principal desafio. O XXIV Capítulo Geral (2009) nos pediu nova disponibilidade, nova solidariedade, novo profetismo e nova mística missionária. Como Congregação devemos discernir e encontrar opções concretas. Devemos, como comunidade, nos abrir à Vontade de Deus: ouvir a voz do Espírito Santo, reconhecer os sinais dos tempos, buscando e acompanhando os mais abandonados, especialmente os pobres. O “abandonado” são os pobres, deixados à margem pela sociedade; são os excluídos dos bens sociais e materiais, bem como os oprimidos e os que sofrem. Eles também são aquelas pessoas, comunidades e grupos sociais “colocadas à parte” pela Igreja, aqueles que são abandonados espiritualmente e aqueles que se sentem excluídos da própria Igreja.

Confrontados com esta missão, é necessário recuperar a mística missionária com grande disponibilidade, criatividade, caridade apostólica e dinamismo missionário. Nós somos intermediários ativos que têm uma nova visão do Reino de Deus enviados para mostrar o amor incondicional de Jesus Cristo, para promover uma evangelização inculturada, uma espiritualidade encarnada, o valor da vida e da dignidade das pessoas; uma cultura de liberdade, justiça e solidariedade, com um profundo senso de corresponsabilidade.

Nada disto será possível sem uma conversão pessoal e comunitária. Sabemos que este é um assunto interno da Congregação. Falta-nos uma verdadeira avaliação de vida, considerando nossa realidade atual, sem enganar a nós mesmos e olhar buscando transformação. Devemos renovar nosso coração, nossa motivação espiritual e fortalecer nossa mística missionária. A conversão permanente constitui uma dimensão fundamental da nossa espiritualidade. Convida-nos a tornar-nos mais abertos à Deus, à misericórdia, à compaixão e à caridade apostólica, à solidariedade, à vida fraterna em comunidade, às pessoas que sofrem, aos pobres e aos abandonados.

Com a graça de Deus, nós temos de lutar seriamente contra as nossas formas de egoísmo; contra o “comodidades” materiais, intelectuais e espirituais; contra  a preguiça pessoal e pastoral; contra o “clericalismo” que nos distancia do povo; contra as atitudes típicas da “burocracia” ; contra discussões vãs que produzem paralisia; contra a “fofoca” que destrói e a conversa fiada; contra as rivalidades, as invejas e a competição que nos dividem; contra os interesses mesquinhos e a “politicagem” que afetam nossas comunidades e prejudicam profundamente nossa ação pastoral; contra a incapacidade de nos abrir aos outros e às novas mentalidades.

Critérios que reforçam nossa ação missionária

– Responder mais prontamente às necessárias e urgentes e demandas atuais da evangelização em diferentes lugares, culturas e contextos sociais. Falta-nos uma reforma, uma “reestruturação”, entendida como mudança de mentalidade, conversão espiritual, mudanças em nossas estruturas e nas formas de organização, tentando ficar mais perto do povo. Falta-nos mais rapidez pastoral nas decisões sobre as orientações e os Superiores e nas atitudes missionárias básicas dos confrades.

– Maior abertura à solidariedade, ao espírito de associação com outras Unidades Redentoristas e organizações similares, para otimizar os recursos humanos (professos Redentoristas e Leigos/Leigas), espiritual e material. Províncias redentoristas não devem competir umas contra os outras.

– Nos abrir a uma cooperação cada vez mais ativa e recíproca com os leigos (homens e mulheres) que partilham a missão, espiritualidade e carisma da Congregação, e mesmo com religiosos e religiosas com carismas semelhantes. Os Congregados professos (padres e irmãos) não são os únicos “mestres” do carisma redentorista. Promover a colaboração, a associação para a pastoral e o despertar do espírito missionário em todas as pessoas, dando maior vitalidade ao carisma redentorista.

– Vamos nos deixar conduzir pelo princípio da “misericórdia”. Assumamos essa realidade inegável: muitas pessoas e grupos de pessoas continuam a sofrer de uma série de deficiências e violências (afetivas, de gênero, sexuais, econômicas, culturais, sociais, políticas, etc.). Muitas pessoas são discriminadas e oprimidas; são vítimas de vários tipos de abuso de poder. Há muitas pessoas pobres, desempregadas, sem esperança, abandonadas, excluídas da sociedade e da Igreja. Misericórdia é a reação correta diante de um mundo que sofre.

– Nós Redentoristas somos convidados a trazer esperança e anunciar a Copiosa Redenção de Jesus Cristo. Lembremo-nos da parábola do “Bom Samaritano”. O princípio da “misericórdia” é o que leva a reagir ao sofrimento dos outros. Misericórdia é o princípio de Deus e é isso que o leva a reagir e responder ao sofrimento humano. É a ação de Deus através da Encarnação e da Redenção. A resposta de “misericórdia ” deve ser sempre pessoal, comunitária, pastoral e social. Esta não é uma compaixão sentimental, paternalista ou individualista, mas deve ser acompanhada por ações concretas.

– Caminhar com esperança ativa. A esperança autêntica é sempre ação e leva a “fazer alguma coisa”, não basta a reflexão teórica nem a discussão. Os pobres ensinam-nos a viver a esperança porque quando temos tudo e as soluções estão à mão, parece não haver necessidade de esperança. Mas quando nos falta tudo, quando nada parece ser bem-sucedido e tudo dá errado, é exatamente nesses momentos que nos faltam muita fé, esperança e confiança.

– A esperança, claramente, é a filha de indignação diante da injustiça, mas também da imaginação criativa. Está indignado, critica e reclama, mas também oferece “algo novo, alternativo ou diferente” e realiza o que é novo. Esperança requer algumas habilidades muito importantes, tais como a paciência, o diálogo, a perseverança, a resiliência (a capacidade de recuperação), a flexibilidade e muito bom humor.

– Nossa esperança é fortemente baseada no Amor de Deus, na ressurreição de Jesus Cristo, no mistério da redenção. A esperança se vive na encarnação e no espírito de luta. Não se trata de lamentar, mas de ação positiva e proativa. Não se trata de repetição com nostalgia do passado e nem mesmo crítica desnecessária e destrutiva. É disponibilidade, abertura, cooperação, solidariedade, parceria com os outros e ações concretas.

– Ter uma visão realista sobre o futuro. É preciso empenho e luta, mas não há garantias sobre o futuro. Nenhuma fantasia ou imaginação garante o futuro; não faz sentido sonhar em recuperar um suposto “passado glorioso” que não existe mais. Aqueles que dizem que “não temos futuro” confundem o futuro com o passado. Mas o futuro não perdoa, segue em frente, diante de nós. Vai ser diferente, mas é preciso “olhar para a passagem do tempo”. Se estamos exigindo que o futuro venha logo, é certo que será muito difícil. Ele sabe esperar: ele tem mais paciência do que nós. Temos de mudar a nossa atitude em relação ao futuro.

– É preciso mudar muitas coisas, a vida nos ensina que todo o futuro é baseado nos ciclos de nascimento, morte e vida nova, cada um com seu momento em um processo de mudança. Escolha significa “deixar algo” para assumir um “novo projeto”: morrer e nascer de novo. O futuro verdadeiro é tudo o que se baseia na fidelidade criativa e que nos empurra para além do presente.

Peçamos, em nossa oração, o dom da fidelidade criativa. Permaneçamos fiéis ao carisma e à missão redentorista. Este é o nosso presente e nossa melhor esperança de enfrentar o futuro. Isso é que nos recorda sempre São Clemente Maria Hofbauer. O Senhor Deus nos ajude a seguir a Sua vontade, pregando o Evangelho “de modo sempre novo”, com renovada esperança, com corações renovados e estruturas renovadas .

P. Enrique López , CSsR

15 de março de 2014

 (tradução: Pe. Rafael Vieira, CSsR, Scala News)